terça-feira, 14 de junho de 2011

Sobre a morte a vida

Perdi duas pessoas queridas dentro de exatos 13 dias, em circunstâncias e momentos da vida extremamente diferentes. Quando a primeira se foi, uma tia-avó querida de 77 anos, pensei em escrever um texto sobre as muitas coisas que me vieram à mente. Ontem, o segundo baque: um amigo da família que me viu nascer e crescer e sempre frequentou minha casa se foi de forma abrupta. Situações tão diferentes e igualmente difíceis de entender.

Minha tia-avó nasceu surda, não foi alfabetizada. Casou-se com um homem também surdo. Ainda jovens, se mudaram para o Rio de Janeiro, onde tiveram uma única filha, ouvinte e escolarizada. Um dia, resolveram mudar para Belém, no Pará, pra junto do pai e do irmão dele. Foram morar no sítio desse pai e desse irmão, que, algum tempo depois, foram encontrados mortos e enterrados em suas próprias terras. Ficaram sozinhos no mundo, os três. Longe da família, vivendo de aposentadorias. Nesse cenário minha prima foi crescendo. Virou trabalhadora, batalhadora. Cuidou da doença do pai, chorou sua morte. Em 30 anos em Belém, vieram pra São Paulo ver a família umas 2 vezes. E minha tia-avó se complicando com a saúde cada dia mais. Em janeiro desse ano, depois de muito ouvir “nãos” nos hospitais do SUS de Belém, minha prima entrou em desespero, comprou duas passagens de avião e veio pra Americana, na casa da minha avó. Até os médicos que atenderam minha tia choravam ao ver o estado dela. Pés e mãos já há anos quebrados e não curados, uma bursite aguda no ombro esquerdo, anemia profunda. Sem andar e sem falar, sem ouvir, sem poder ao menos expressar sua dor. Depois de um tempo de luta, ela se foi. E, mineira, se foi com vontade de comer pamonha, como disse pela língua de sinais na véspera de sua morte.

Eu nunca tinha chorado num enterro. Não que não gostasse das pessoas que já tinha perdido. Mas dessa vez foi diferente. Chorei muito, não a morte, mas a vida que minha tia-avó levou. Sofreu muito, a vida toda, passou por muita dor, muita dificuldade, muita injustiça. E se foi sem ao menos ter conseguido comer a pamonha que ela tanto gostava, porque nessa altura nada mais parava no estômago dela. Foi aí que pensei que o triste não é mesmo a morte, mas a vida. A morte nem sabemos ao certo como é, mas, no nosso entender, para ela, foi um descanso. Mas os seus tão sofridos 77 anos de vida, as suas limitações e sua doença que não lhe deram nem mesmo o direito de realizar os últimos simples desejos, isso sim é muito triste. Isso sim não dá pra entender.

Ontem voltei ao mesmo local pra velar o corpo do amigo da família. 72 anos. Nunca vi um velório tão cheio! Tantas pessoas que gostavam dele! Sempre cheio de alegria, risadas, brincadeiras, churrascos, família. Às 10 da manhã, batia papo com um vizinho na calçada, de repente parou de falar e caiu. Fizeram massagem cardíaca, respiração boca a boca, de nada adiantava mais. Segundo os médicos, mesmo dentro de um hospital não teria jeito. Foi fulminante, rápido e indolor. Acho que, pra quem vai, é o melhor jeito, “que nem passarinho”, mas pra quem fica é sempre mais doloroso. De qualquer forma, apesar da tristeza (e talvez por ainda não ter “caído a ficha”) eu, novamente, não chorei. Doía muito grande aqui dentro por saber que nunca mais o teremos entre nós, sendo o anjo de alegria que ele sempre foi pra todos. Doía demais ao ver a esposa, as filhas e os netos o perderem assim de forma tão inesperada. Mas, ao contrário da minha tia-avó, sei o quanto sua vida foi boa, feliz, realizada. Sei o quanto ele foi feliz e fez os outros felizes. Isso nos acalma, nos conforta, nos deixa só boas lembranças na memória.

É difícil compreender tudo isso. Porque estamos aqui? Qual nossa missão? Será que, no fim de tudo, tudo terá valido a pena? Ou será que isso tudo é apenas um ensaio, uma pré-vida diante da grande vida que nos espera? Afinal, não seria muito justo se tivéssemos somente alguns anos de existência, e esses anos tivessem tantas possibilidades diferentes, como essas duas vidas queridas pra mim que se foram nesse início de junho. Cada um é livre pra acreditar no que quiser pra depois da morte, mas uma coisa é importante: acreditar. Em algo, em qualquer coisa, não se pode pensar que isso é o fim de tudo. É isso que nos move a viver, a sermos melhores, a buscarmos a perfeição. Afinal, Ele disse “sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt, 5,43). A perfeição é uma utopia? Talvez, mas é nela em que devemos nos inspirar. Embora tenham percorrido caminhos tão diferentes em suas vidas terrenas, acredito que as minhas duas pessoas queridas, de formas distintas, tenham cumprido suas missões e merecido estarem hoje onde estão. Ao lado Dele, eu acredito. Pode existir lugar mais perfeito?

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O primeiro pé de galinha

Hoje eu estava procurando na minha caixa do Gmail um e-mail que mandei pra mim mesma há alguns meses, com um link importante (uma das maiores correspondentes de e-mails minha sou eu mesma). Na procura, sem querer cliquei em “mensagens mais antigas” e meu Gmail foi lá pra última página, com mensagens de 2005. Eu, que adoro uma sessão nostalgia, comecei a abrir alguns. 2006, 2007... Fui olhando os remetentes, os assuntos, li algumas conversas, lembrei de alguns episódios. Coisas que eu achava que eram importantes, que eram decisivas, que eram eternas. Passou. Graduação, iniciação científica, amigos da van (“indas” e vindas, como o pessoal falava), começo de namoro, crises-comigo-mesma de começo de namoro. Tudo passou.
Aí lembrei dessa música. Como eu gosto dela hoje!

A Lista – Oswaldo Montenegro

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber
Quantas mentiras você condenava
Quantas você teve que cometer
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você
Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você

Há 10 anos eu torcia o nariz pra MPB. Hoje adoro! Oswaldo Montenegro, Ney Matogrosso, Toquinho, Chico Buarque, Zizi Possi, Maria Rita... e, claro, Roberto (ah... o rei!) Nova Brasil FM é a minha praia! (rss) As (poucas) músicas que eu gostava há 10 anos continuo gostando (poucas porque eu era “crítica” – pra não dizer chata – demais: meu bom e velho rock – nacional e internacional, Legião Urbana, e meus amados de sempre Roupa Nova). Hoje sou menos “crítica”, menos chata, mais tolerável, e reconheci que a Britney tem seu lado foda, que sempre amarei o bom sertanejo dos anos 90, que tenho saudades de dançar É o Tchan, que é gostoso cantar pagode e que MPB é pura poesia musicada. Lindo!
Mas queria ressaltar o fato de que as músicas que eu gostava há 10 anos eu ainda gosto. Isso quer dizer que não neguei, não apaguei, mas agreguei novos gostos e estilos. Será que isso é assim só com música? Será que a adolescente de 10 anos atrás ainda vive dentro de mim de alguma forma? Será que ela agregou alguns valores e algumas ideias, modificou algumas outras ou será que simplesmente morreu e nasceu outra no lugar?
É inegável o fato de que há 10 anos (às vezes nem é preciso ir tão longe, 5 anos, como nos e-mails que encontrei sem querer hoje) tudo era bem diferente. Inegável que eu pensava, falava, escrevia, agia e reagia de maneiras diferentes às de hoje. O tempo nos esculpe. E, além de tudo novo que agreguei, as coisas que ainda continuam vivendo dentro de mim são as que valiam a pena. A minha lista de grandes amigos que eu mais via há 10 anos atrás perdeu muitos membros, alguns, sim, que fazem falta, mas a maioria, que não, nem um pouco, e que somem completamente perto dos que ainda tenho certo contato, que são aqueles que valiam a pena.

Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora
Hoje é do jeito que achou que seria?

Não, nem de longe imaginei que seria quem sou hoje, que estaria onde estou hoje. Mas gosto do resultado que vejo. Sou a foto passada dentro do espelho de agora. Combino tudo o que já pensei, sonhei, acreditei com o que penso, sonho e acredito hoje. Passou a síndrome de Peter Pan de 5 anos atrás, aceitei que cresci e que estou crescendo – e envelhecendo – a cada dia. No dia do meu último aniversário, fui passar sombra pra sair e percebi, pela primeira vez, um micro-pézinho de galinha na pálpebra. E me vi feliz na semana passada porque descobri um excelente produto pra lavar o box do banheiro. É claro que tenho saudades da adolescente de oitava série com a camiseta do Legião, e também da jovem estudante de Letras que sobrevivia com R$300,00 de bolsa pesquisa... mas elas não morreram. De certa forma, vivem e sempre viverão aqui dentro. Porque, cada vez que eu ouvir Aerosmith, minha alma vai ser transportada por outro lugar, como quando eu ouvia trancada no quarto com o som bem alto. E é por isso que, dentro de alguns meses, caminharei ao som de “I don’t want to miss a thing” no corredor de uma igreja, braços dados com meu pai, a caminho do meu futuro marido.

Mas não uso mais all-star.