Coisas que aprendi a gostar depois de adulta:
- berinjela
- perfume doce
- MPB
- matemática
- Harry Potter
- bebês
- Beatles
- azul marinho
- pérolas
- Excel
Coisas que gostava e deixei de gostar:
- repolho
- Vídeo Show
- brinco de argola
- Monteiro Lobato
- tênis
-
Coisas que deveria gostar (deveria?), mas não consigo:
- beterraba
- Cirque du Soleil
- jovem guarda
- melancia
- café
- Teatro Mágico
- a música “Oração da Família” (“Abençoa, Senhor, as famílias amémmm...” =P)
- bolacha Passatempo
Coisas que gostava quando criança e continuo a gostar:
- minhocas de gelatina
- É o Tchan
- falar sozinha
- Turma da Mônica
- pular onda
- lápis de cor
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
E acabou-se o meu reino encantado...
Num domingo de abril, pegamos a rodovia rumo à cidade Casa Branca, onde moram primos meus. Dentre eles, o marido de minha prima, que está com idade e doença de Parkinson já bastante avançados; era, portanto, mais uma visita do que um passeio. Hoje meus primos moram na cidade, mas até 2004 moravam no sítio. A última vez que estive lá foi 2006, para a festa de aniversário da minha prima, numa visita rápida também, de apenas um dia.
No caminho já tive algumas pequenas tristezas. Nas margens da Anhanguera, próximo à Araras, existia uma placa gigante na forma de um boi. Quando éramos crianças, gostávamos de ver o “boizão”, que de longe era gordo e grande, mas que, naturalmente, ao chegarmos no ponto exato ao lado da placa, ficava fininho. Mais adiante, próximo a Leme, também às margens da rodovia, havia um pequeno cemitério com uma capelinha, onde foi enterrada uma família inteira morta num acidente. Embora pareça mórbido, toda a minha vida eu gostei de passar ali e observar as cruzinhas. Mas alguém se incomodou com os pobres mortos e também os retirou dali. Alguém fez também uma nova ponte, dupla e cercada por muros bem altos, sobre o Rio Mogi Guaçu, de modo que não é mais necessário esperar o sinal verde para passar sobre a antiga ponte que só passa um carro por vez, mas que tem uma visão privilegiada da Cachoeira de Emas.
Já no nosso destino, depois do almoço, dentre conversas sobre assuntos corriqueiros na cozinha, surgiu a informação que a antiga casa do sítio havia sido desmanchada. Que um investigador comprou o sítio e desmanchou tudo. Na hora não processei muito a informação. À noite, com a cabeça no travesseiro, repeti as palavras na minha mente: foi desmanchada.
Lembro-me de cada pedacinho daquela casa. As cores das paredes, até a metade pintadas com tinta óleo. Os buracos nas madeiras das portas. O portãozinho baixo de madeira na porta da cozinha. Os degraus. O chão de cimento vermelhão. As cortinas com desenhos de árvores. O chão do quartinho onde ficava a máquina de costura – onde minha prima costurava trouxinhas de palha de milho para encher de pamonha – em que um gato pisou quando o vermelhão ainda estava mole, e marcou suas patinhas. O telhado à vista de uma casa sem forro, com suas madeiras enegrecidas. Os fios das lâmpadas pendentes do telhado. A mesa da cozinha, uma grande cozinha onde passávamos a maior parte do tempo. O pote de barro, que era enchido diretamente com a água da torneira, vinda da mina. O fogão de lenha. Ah, o fogão de lenha! O cheiro da lenha queimada, que se tornou pra mim o melhor cheiro em todo o mundo. O calor da lenha queimada durante o dia que permanecia ali à noite, e então os gatinhos subiam para esquentarem-se nas noites de inverno. A geladeira marrom no canto da cozinha, cheia de ímas de frutas e pássaros. A poltrona próxima, onde eu vivia sentada com os gatos no colo. O retrato dos pais da minha prima, naquele jeito antigo, na parede do quarto dela. A imagem de Santa Rita de Cássia num oratório no quarto. O chuveiro com água esquentada pelo fogão a lenha. O sofá da sala. O quadro com o desenho do santuário e da passarela de Aparecida na parede da sala. O quadro de força. A varanda na porta da sala, cercada por uma muretinha. A faixa de cimento que cercava toda a casa. O canteiro cheio de romeu-e-julietas. O pé de jeninapo. O rancho. O paiol. O chiqueiro. O galinheiro. A jaboticabeira. O caminho pra roça. O "corguinho", onde brincávamos todas as tardes tentando pegar peixinhos pretos. Os pés de laranja. Os açudes. As verduras sem fim. Os cachorros. O cachorro branco chamado “Amigo”, que uma vez me salvou de um ataque no cachorro da vizinha. Houve também um pequenino chamado “Purguinha”, sem rabo, todo engraçadinho. Teve também a Pantera, grande e preta, que viveu bastante. Imagino o quando esses cachorros eram felizes e livres. O brejo. O coachar dos sapos à noite. O canto dos galos ao amanhecer. As noites quentes com o céu repleto de estrelas.
Pra qualquer um que estiver lendo esse texto, e que não esteve nesse local, isso tudo parece um monte de lembranças soltas. Mas pra mim são como retalhos mentais que formam uma grande colcha. Se eu viver 100 anos, e, com a graça de Deus estiver lúcida, com certeza vou continuar lembrando de cada pedacinho desse meu pequeno paraíso. Sou uma pessoa nostálgica por natureza, mas foi um golpe saber que meu o lugar onde passei os momentos mais felizes da minha infância, foi destruído por um trator sem coração. É uma dor sem tamanho. Uma saudade que, como me ensinou a própria prima do sítio em versinhos, “é dô qui dá, mas num é dô de duê, é vontade de alebrá, cum vontade de esquecê...”
Se eu morresse agora, ou ainda, se eu morrer aos 100 anos e estiver lúcida, e me for concedido um último desejo, gostaria de sentir o cheiro da lenha queimada pela última vez. É o cheiro mais delicioso do mundo. Porque ele me carrega devolta a dias entre riachos, pamonhas e jaboticabeiras e a noites sob uma imensa abóbada estrelada.
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