segunda-feira, 17 de novembro de 2014
O medo
Já passei muitos medos na vida. Alguns são naturais, afinal, desde que nascemos precisamos enfrentar situações novas a cada dia, e com certeza em todas elas passamos por um processo de insegurança. Medo do mundo fora do ventre materno, medo de andar, medo de pessoas estranhas, medo dos primeiros dias de aula. Medo de mudar de escola, de perder amigos, de perder sua família, medo da minha mãe sair e não voltar mais pra casa, medo do abandono, medo do castigo, medo de ficar doente. Medo de morrer. Medo das provas, medo do vestibular, medo de escolher, medo de ter feito a escolha errada. Tive medo de cada dia da minha vida em que eu lecionei, de cada sala de aula em que pisei e vi dezenas de olhares de desafio e desaprovação. Tive medo de não ser o que eu achava que eu era, e quando eu descobri que realmente eu não era, tive medo de abandonar tudo. Abandonei, mas o medo foi tão, tão grande, que hoje tenho medo só de pensar em um dia pisar numa sala de aula novamente.
Tive medo dos meus primeiros dias nos meus empregos. Tive medo de não conseguir aprender, de não me dar bem. Tive medo de ser demitida. Mas eu fui, e aí prometi pra mim mesma que jamais seria novamente. O que me prende num serviço público, hoje, é o medo de ficar desempregada.
Tive, sim, medo de não encontrar alguém legal. Não era o medo de não encontrar alguém: era o medo de que ele não fosse legal. Medo de sofrer. Medo de me prender a alguém que me sufocasse. Medo de deixar de ser eu mesma por causa de outra pessoa.
Tive medo de deixar a casa dos meus pais e viver uma vida adulta, pagar minhas contas, administrar uma casa. Tive medo de perder aquela coisa que eu só tenho com meus pais, e aquela outra coisa que eu só tenho com meu irmão, e com mais ninguém. Mas esse medo foi em vão.
Tenho medo de perder meus pais. De perder meu irmão. De perder meu marido. Ou que eles se percam.
Mas, como eu disse, muitos desses medos são naturais. Ou, ainda, existem, mas não há o que fazermos. O fato é que, um dia, perderei meus pais. E não há medo que me prepare para isso.
Nunca imaginei, porém, que nesse altura da minha vida o meu maior medo fosse o medo de não viver o que eu tenho tanta sede de viver.
Dia desses estive em um debate com um grupo de amigos, a maioria mais novos e em outro patamar da vida. Quando perguntados qual eram seus maiores medos, surgiram coisas do tipo “medo de aranha”, “de água”, “de altura”...
Foi nesse momento que me senti um peixe fora d’agua.
Na ocasião disse que meu maior medo era perder as pessoas que eu amo. Mas não fui completamente sincera.
Meu maior medo, de verdade, é que quem eu amo não exista. Que nunca venha a existir.
Chego a perder o sono em pensar que quem eu já amo tanto talvez fique apenas no meu desejo, no meu coração.
E...
“Será que você vai saber o quanto eu penso em você com o meu coração?”
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